segunda-feira, 22 de julho de 2013



O momento político e o papel da
Comissão de Igualdade Racial da OAB-SP

Honrosamente fui convidado pela Comissão da Igualdade Racial da OAB-SP para fazer, juntamente com a Profª. Eunice Prudente, sob a luz da Constituição Federal, uma análise da reforma política em debate, a sua importância e as consequências para a população negra.

Inicialmente mencionei a minha alegria por ter sido convidado pela Comissão para fazer parte de um momento importante de reflexão daquele colegiado, criado por minha inspiração e ação em meados da década de 80 e que nunca havia me dado tal distinção, especialmente numa mesa com a presença da insigne Profª Dra. Eunice Prudente que entre outras honrarias foi a primeira mulher a ser Secretária da Justiça e da Defesa da Cidadania no Estado de São Paulo.

Sob o comando da Presidente da Comissão de Igualdade Racial, Dra. Carmen Dora e acompanhados dos integrantes da comissão Dra. Maria Silvia e Dr. Rui, além dos diversos advogados e advogadas que a integram, a reunião teve a qualidade de reunir outros segmentos importantes da nossa população e esse, a meu ver, foi o grande mérito do singelo simpósio.

Além da abordagem técnico-jurídica que apresentei não poderia deixar passar a oportunidade de manifestar a minha opinião sobre o relevante papel que, sob a minha ótica, repito, sempre coube àquela Comissão e que na atual conjuntura se impõe de maneira mais evidente.

É preciso resgatar que a origem desse trabalho na OAB-SP e que daqui se espraiou para todo o Brasil é o fato de que a população negra no exercício das suas garantias de cidadania é reiteradamente tratada com desrespeito por autoridades públicas e também na esfera privada.

A Comissão, todavia, até aqui, tinha se voltado para as questões internas da OAB fazendo apenas atos pontuais para o público externo, quase sempre de caráter festivo, honorífico e não de provocação e enfrentamento político das questões que importam para os afrodescendentes paulistas.

O que levei para o debate na minha apresentação foi a necessidade de, a partir da discussão da reforma política que ainda se dá quase que exclusivamente no seio classe dominante, onde seguramente não se encontra a nossa gente, que a Comissão da Igualdade Racial da OAB, especialmente pelo descrédito pelos quais passam os políticos e seus partidos e mesmo outras formas clássicas de organização social, como os sindicatos, chame para si a responsabilidade de ser a grande interlocutora da nossa população. 

Cabe a essa Comissão e as advogadas e advogados negros, com o uso do ferramental adquirido no curso de direito, ir a cada “buraco” desse Estado, na periferia das grandes cidades e em cada subseção em cada casa de advogado, nas paróquias junto com os APNS, nas igrejas evangélicas com os nossos colegas das várias denominações, nas casas de candomblé, umbanda, associações de bairros, cooperativas de recicladores e outras formas de organização, onde quase sempre a população negra é a maioria, levar a discussão da reforma política.

Esclarecer o que é plebiscito, referendo, recall, voto distrital, como funciona ou porque não funcionam as casas legislativas, o papel do poder executivo e por aí afora.

É hora de enfrentar publicamente questões como as que foram colocadas por um membro da platéia e observador dessa Comissão e questionar o porquê para os manifestantes das ruas as balas são de borracha e para os jovens negros as balas são de chumbo.

Deixemos de ser intimidados. Um outro colega que é meu amigo desde a juventude arguiu que existe uma limitação na ação institucional da Comissão.
Não essa! Nada impede a Comissão de se organizar com seus diversos membros e simpatizantes e enfrentar autoridades que violam direitos constitucionais, a violência policial e dos serviços públicos de saúde, entre tantos outros.

Se assim for estou na luta, sou mais um soldado nesta trincheira e aguardo a minha convocação.

sexta-feira, 21 de junho de 2013







A igualdade tornou possível a vitória do Povo!


                   O Brasil voltou a ser uma grande democracia em pouco mais de duas semanas. Os detentores do Poder e seus partidos políticos estão estupefatos, indignados e preocupados com o rumo que as coisas podem chegar afinal, com raras exceções, não sabem o que é democracia porque, se soubessem, teriam levado o País para o caminho da normalidade democrática e não para este buraco que provoca a justa reação do Povo.

                   Além dos fatos já exaustivamente comentados por gente mais abalizada que eu, observei algo que me pareceu fundamental na conquista popular.

A IGUALDADE.

                   Pela primeira vez na história deste País, a igualdade efetivamente aconteceu. 

                   Estamos assistindo as ruas tomadas pelo Povo Brasileiro e de forma inédita, negros, brancos, amarelos, vermelhos, pobres, muitos pobres, burgueses, intelectuais, universitários das públicas e privadas, semialfabetizados da rede pública de ensino, moradores do centro e da periferia, artistas, jogadores de futebol, religiosos etc (ufa). atuando num só sentido reivindicando que o Povo seja respeitado.

Foto do sitehttp://acritica.uol.com.br/noticias/Manifestacao-Paulo-mobiliza_ACRIMA20130617_0074_15.jpg


                   Esta ação popular lembrou-me uma peça de teatro simbólica do Movimento Negro dos anos 70 escrita por Teresa Santos e Eduardo de Oliveira: E agora falamos nós.

                   Não se compara às grandes concentrações pela queda da ditadura militar e das “diretas já”, me recordo bem. Naquelas havia sempre um palanque e um cordão de isolamento para as autoridades e convidados especiais. Tinha sempre uma clara e física divisão entre eles e o POVO, o máximo que se conseguia “negociar” era a chamada para um representante de cada segmento falar rapidamente - fazer na verdade o “esquenta” - e era um pau lascado para saber quem falaria e o que falaria em nome de mulheres, negros, estudantes, empregadas domésticas, trabalhadores. Homossexuais? Nem pensar.

                   Naquelas manifestações políticas importantes, é inegável, havia uma evidente diferença entre eles e nós.

                   Agora não, o Povo não tem – e nem precisa – dessa gente. Não há palanques, não existe quem seja mais importante, não há privilegiados. 

                   É tudo do Povo, está tudo dominado pela igualdade e que assim seja de agora, para todo o sempre. Amém!

terça-feira, 14 de maio de 2013




Punição ao Estado por violência policial contra jovem negro repercute na televisão nos 125 anos da Abolição


A Rede Record de Televisão e o Portal R7 levaram ao ar na noite de 13 de maio de 2013, como principal matéria sobre os 125 Anos da Abolição dos Escravos a história da violência policial praticada contra o Rapper James Benício do Potencial 3, que iniciada em 2001 quando foi arbitrariamente detido e levado para ser fotografado em distrito policial, ainda é um peso em sua vida.

Somente agora iniciamos a fase de execução contra o Estado de São Paulo e James ainda terá uma longa jornada até receber a indenização que lhe é devida pelo dano moral que lhe foi provocado pelo Poder Público que deveria proteger o cidadão.

Isto comprova o quanto ainda estamos distantes de obter cidadania plena e sermos tratados com a dignidade prevista na Constituição Federal.

sábado, 13 de abril de 2013




A Fórmula 1, a discriminação racial e o PIMESP.


 

O título pode remeter o leitor à expectativa de que nesta publicação contarei algum caso de discriminação racial na badalada Fórmula 1. Não, utilizarei a mais importante categoria do automobilismo para mostrar como se discrimina apesar de todas as aparências de tratamento igualitário.

Muitos dos que me acompanham podem não ser fãs da Formula 1 como eu sou e inicialmente poderão não entender na sua plenitude o que estou falando, mas é simples.

Na primeira prova deste ano o piloto Felipe Massa que corre com um dos dois carros da famosa e poderosa Ferrari fez os melhores tempos nos treinos livres e especialmente no de classificação que determina a posição de largada dos carros do que seu colega de equipe Fernando Alonso, o que o colocou na quarta posição para a largada e Alonso atrás na quinta.

Dada a largada Felipe Massa e Fernando Alonso ganharam duas posições cada um. Massa então foi para o segundo lugar e Alonso para o terceiro e neste início de corrida Alonso não conseguiu ultrapassar Massa.
A emoção e as mudanças de posições na Fórmula 1 de hoje ocorrem principalmente, na estratégia e velocidade de se trocar pneus nos boxes. E a equipe Ferrari, como faz tradicionalmente, chama para o box o seu piloto melhor colocado para a primeira troca, no caso Massa e depois o que vem atrás, Alonso. Na volta a pista as posições se mantém.

Aí então vem a discriminação entre os pilotos e é assim que faço a analogia com a discriminação racial.
Os dois têm carros iguais, pneus iguais, mecânicos e engenheiros de igual competência e o mesmo combustível. Aparentemente as mesmas oportunidades de ganhar a corrida ou de bem se classificar ao final dela e aí então o que faz a Ferrari, muda o seu comportamento e ao invés de trocar primeiro o pneu do seu piloto melhor colocado, Felipe Massa, chama para o box o piloto Alonso e deixa o outro por mais três voltas na pista e só depois disso faz a troca dos pneus de seu carro. Quando volta para a pista Felipe Massa não só está atrás do seu companheiro de equipe, mas atrás de outros três carros de equipes diferentes.

Aí está discriminação. Aparentemente ele continua em iguais condições que o outro, que agora em segundo luta pela vitória, na prática, foi tratado como segundo piloto, o que é na prática, porque com os pneus desgastados nas três voltas a mais que a equipe o manteve na pista, era impossível manter a mesma velocidade e quando foi tardiamente para o box, perdeu a igualdade de oportunidade para correr para o primeiro lugar.

A discriminação racial no Brasil atual é exatamente assim. Aparentemente todos concorrem em igualdade de condições, na prática, sabemos que alguns são chamados antes que os outros e, portanto, tem condições de correr para o pódio, aos demais, resta a possibilidade de ser auxiliar daqueles ou meros coadjuvantes.

Em São Paulo, por exemplo, cria-se o PIMESP (Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista), atrasadamente em relação aos demais Estados e a União que estabeleceram programas de cotas para negros há pelo menos 10 (dez) anos, chama-o de mérito, como se os programas de inclusão dos demais Estados fosse demérito e finge colocar os jovens negros paulistas em posição de ganhar a prova. 

Não é verdade.

Acho que vou deixar de assistir corridas!

Charge extraída do site:https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhR5jXNK4YXqMmC1MgCPCCIW_vAI9Mn-QefxTrKzI_UNlJuJxfQDH4pRzudPwpzha5rfcLYa5jhyrkklk6gia8_yyM3bHWfYvzmM0qQe2__WLY4KjXxBAA-usUtBW9AgNheuxLvmKKmBwE/s640/charge-aroeira-felipe-massa2.jpg