quarta-feira, 18 de abril de 2012

60 ANOS – O PERSONAGEM HOJE SOU EU.

Demorou, menos tempo do que eu pensava, confesso, mas, inicio neste 18 de abril uma nova década de vida!

Meu sentimento? De incontida alegria.

Nos últimos dias tenho assistido das minhas memórias um filme da minha vida. Lembro-me da Vila Guarani, no Jabaquara, local semi-rural há sessenta anos atrás, dos vizinhos, das famílias amigas, dos meus pais que se encontraram na mesma Vila Guarani e que se tornaram “parentes”, das ruas de terra, córregos, muito verde, uma enorme quantidade de campos de futebol, das minhas brigas na rua – como apanhei com esse tamanhico, sem irmão para me defender e uma marrudice de gigante, enfrentava quem fosse, aqueles grandões de um metro e vinte ou gigantes de um metro e meio e, então, era surrado ou corria, e como!

Corria tanto que nesse filme que estou assistindo, me recordo que passei a competir na rua (dar uma volta no quarteirão) e depois no bairro, associação de moradores, na igreja etc. e quase sempre ganhava.

Ah! O filme agora é da chegada na igreja, foi junto com a ida para o primário na Escola Pestalozzi – escola particular em São Judas (chique né?) – onde fiz a primeira comunhão, entrei na Cruzada Infantil, fui coroinha, congregado mariano, um pequeno beato.

No ginásio estadual Miguel Roque novos amigos. Bom não vai dar pra contar tudo, afinal são 60 anos.

Na Vila Guarani, de hoje, continuo tendo grandes amigos. Muitos, infelizmente, partiram e cá entre nós estou comemorando essa data na expectativa de que ainda demore muito para reencontrá-los seja lá onde estejam.

Outros se mudaram e alguns poucos decidiram esquecer suas raízes.

Eu não estou aqui firme. Trabalhei em duas grandes empresas VASP e Metal Leve e das duas, de onde me desliguei tem mais de trinta anos da primeira e mais de vinte da segunda, ainda tenho muitos amigos com quem compartilho alegrias, lembranças e encontros de famílias. Um grande barato.

Mas conheço muita gente mesmo é do movimento social e da minha ação política.

No filme que estou assistindo, quando tento me lembrar de todos é simplesmente impossível. O HD que já não é dos mais modernos após 60 anos, coloca-me uma série de nomes e imagens de pessoas infindáveis. Que legal.

É certo que muitos foram e serão sempre marcantes, outros nem tanto, mas são amigos e companheiros de épicas jornadas. PMDB, PSDB, passeatas, manifestos, medo das prisões da ditadura, convenções, uma profusão de lembranças: o Grupo Negro da PUC que idealizei e criei com divers@s companheir@s que ainda estão nessa jornada, fui o articulador dos advogados negros que resultou na primeira participação organizada dos nossos profissionais na OAB-SP e que hoje se espraia por todo o Brasil, o Conselho da Comunidade Negra é outro filho pródigo e o SOS-Racismo do Geledés Instituto da Mulher Negra, gestado com aquelas maravilhosas mulheres negras que admiro.

Registro, também, com muita alegria, minha passagem na PUC como estudante a oportunidade que a vida me deu de estudar 1 ano na Universidade do Texas, a minha experiência como professor universitário e da Polícia Militar, onde sei que desempenhei papel fundamental na implantação da cadeira Igualdade Racial e Ações Afirmativas que está modificando a história daquela corporação em relação ao negro e a outros grupos étnicos historicamente discriminados.

Resumindo ainda mais, ou como dizem os novos juristas “em apertada síntese” (se é síntese, precisa ainda ser apertada?) há exatamente um ano cheguei na Secretaria da Justiça e Defesa da Cidadania para chefiar a Coordenação de Políticas para a População Negra e Indígena, um novo desafio que tem me trazido muita satisfação e certamente bons resultados.

Ficou por último quem está em primeiro lugar – a família.

Aos 60 anos a imensa alegria de ser filho da Valdivina e do Hélio e que embora ausentes dos abraços estão presentes na minha lembrança e eterna gratidão. Deram a mim e minhas irmãs Ângela Cristina e Adail Cláudia, além de uma vida simples, porém, com estrutura econômica e de caráter moral indiscutível.

A Família

Bodas de Prata dos meus pais Hélio e Valdir. 
Eu e minhas irmãs Ângela Cristina e Adail Claudia.


Minha companheira Nilda, responsável pelo meu equilíbrio
 
e abaixo com meus três filhos Clodoaldo, Carolina e Layla, além do meu pai e minha irmã Claudia, que sempre me trouxeram alegrias e orgulho de ser pai deles.

 Estou nas nuvens com minhas duas netas Jamila (a maior filha do Clodoaldo) e Malika (o bebê filha da Carolina).

  este é o meu núcleo central. Não podem me faltar nunca!
 
Em paralelo e muito importantes meus avós Benedito e Benedita, tias, tios, prim@s e sobrinh@s.

É assim, SESSENTÃO de felicidade e prazer. Um abraço a tod@s.

Arruda

terça-feira, 3 de abril de 2012


DEMÓSTENES – a sina de ser um vendido.
(*384 a.C - + 322 a. C)

Demóstenes foi um proeminente orador e político grego da cidade de Atenas.

Com enorme eloqüência demonstrava a capacidade intelectual da antiga Grécia, a política e a cultura até hoje referencias no mundo todo.

Demóstenes aprendeu retórica estudando os discursos dos grandes oradores antigos.

Demóstenes, o grego, é sobre ele que estou escrevendo, era órfão desde os sete anos, teve a sua herança roubada por quem o cercava, era muito gago e começou a sua brilhante trajetória de orador aos vinte e sete anos fazendo muitos exercícios para superar essa deficiência.

Sua vida como orador e político foi dedicada à defesa de Atenas que se via ameaçada por Filipe II da Macedônia, contra quem Demóstenes escreveu inúmeros discursos que ficaram conhecidos como Filípicas.

O objetivo era conclamar os cidadãos atenienses e arregimentar forças contra a Macedônia antes que fosse tarde demais.

Após 335 a.C., Demóstenes vê decair tanto sua reputação quanto influência.

Demóstenes, o tal da reputação ilibada, grande tribuno, autor de discursos contundentes descobriu-se ter sido comprado por um ministro de Alexandre e facilitar sua fuga de Atenas.

Aquele homem honesto, probo, defensor da moralidade, da ficha limpa, dos escravagistas gregos exploradores de homens e mulheres escravas, foi preso por ser um VENDIDO.

Qualquer semelhança com algum Demóstenes que por acaso você tenha ouvido falar juro, te juro mesmo, que é mera coincidência.


Encerro essa homenagem a Demóstenes, o grego, pedindo que ouçam o grande orador e filósofo brasileiro – Bezerra da Silva interpretando - Os Federais Estão te Filmando.


domingo, 18 de março de 2012



 O VENDEDOR DE ÓLEO DE BALEIA E O HUMOR COM NEGRO.

A semana passada foi marcada pela grande repercussão e polêmica envolvendo o show de piadas Proibidão e a reação do músico negro Raphael Lopes, que mesmo trabalhando no evento como integrante da banda da casa noturna onde se realizou o stand-up chamou a polícia e deu publicidade ao caso por ter se sentido atingido moralmente onde numa “piada” foi comparado a um macaco.

Por dever de ofício fui envolvido diretamente na polêmica e dei diversas entrevistas para alguns dos mais importantes veículos de comunicação, contudo, não poderia deixar de manifestar, no meu espaço, o que o penso sobre o velho tema: racismo versus liberdade de expressão.

A liberdade de expressão, especialmente quando se trata de manifestação artística ou política é a mais importante exteriorização da democracia e orgulhosamente integro o grupo de brasileiros que enfrentou a ditadura militar para que ela fosse restabelecida integralmente no Brasil. Portanto, para essa garotada que hoje faz apresentações públicas, sou um dos milhões de brasileiros que se insurgiram a censura e ao impedimento da livre manifestação do pensamento.

Só que garantimos também que no Brasil a dignidade da pessoa humana seja um dos fundamentos do estado democrático de direito, de maneira tão importante e veemente, que ela foi colocada como a terceira alínea do artigo primeiro da Constituição Federal.

E mais, para comprovar a não aceitação de qualquer forma de discriminação ou racismo, repetiu-se tais mandamentos nos artigos 3º, 4º e 5º, exatamente nos títulos dos princípios (I) dos direitos e garantias (II) fundamentais onde também estão consagrados os direitos de liberdade de pensamento e de expressão a que se referem os realizadores do espetáculo para, inclusive, de maneira ilegal, exigir a assinatura da platéia em um documento em que, a rigor, aceitavam que seus direitos constitucionais fossem invalidados em relação ao que ali se realizava. Um absurdo!

Não se pode NUNCA, nem mesmo o seu titular, ainda que por documento, abrir mão da dignidade humana. Esta, como a vida é um direito indisponível.

E o que o vendedor de óleo de baleia tem a ver com essa questão?

Durante os séculos 18 e 19 a iluminação das ruas era feita com óleo de baleia e, certamente, havia muitas pessoas que se beneficiavam economicamente desse mercado, até que surgiram duas novas alternativas de iluminação: a gás e a querosene, que foram adotadas no Brasil e em muitos outros países.

De uma hora para outra o mercado de óleo de baleia acabou e os comerciantes desse produto que não se adaptaram as novas regras também se acabaram.

É assim o mundo. Os humoristas brasileiros que necessitam tripudiar sobre, raça, deficiência física, orientação sexual, entre outros, para mostrar a sua “arte” saibam que a nossa sociedade não mais aceita com passividade essa violência contra os direitos humanos e que já é hora de modernizarem suas lamparinas.

Se não tiverem competência para tal retirem-se e procurem os programas sociais de reinclusão profissional para que não corram o risco de serem encarcerados por racismo ou outra forma inaceitável de discriminação.

domingo, 4 de março de 2012


O comandante negro
Carlos Magno Nazareth Cerqueira



Introdução

É de muitos conhecido o trabalho que desenvolvo há anos com a Polícia Militar do Estado de São Paulo e também, em duas oportunidades, com a Polícia Militar do Distrito Federal, sempre em busca de ajudar a construir um serviço público de segurança que respeite a população negra e outros segmentos históricamente discriminados.

Não tive ainda a oportunidade de trabalhar com a Polícia Militar do Rio de Janeiro, porém, é daquela corporação que tenho o maior exemplo de conduta de um alto oficial negro, o primeiro oficial negro que chegou ao mais alto posto de uma força policial pública no Brasil.

O Coronel PM Carlos Magno Nazareth Cerqueira.

Na pesquisa que realizei sobre o esse importante personagem negro da recente história do Brasil, encontrei um trabalho apresentado por Carlos Nobre – Universidade Candido Mendes – UCAM – que pela qualidade e riqueza de detalhes sobre a vida desse importante homem negro, tomo a liberdade de publicar uma parte recomendando a sua leitura completa no endereço ao final citado.


O coronel Carlos Magno Nazareth Cerqueira ingressou na Polícia Militar em 1954 e nela permaneceu por quase 40 anos, sendo duas vezes comandante-geral da corporação, de 18 de fevereiro de 1983 a 15 de março de 1987, e de 15 de março de 1991 a 01 de janeiro de 1995. Segundo Sérgio da Cruz, também ex-comandante da PM do Rio de Janeiro, o oficial negro exerceu como aspirante a diversas funções e recebeu vários elogios dos superiores. Este talento profissional iria mais à frente tornar-se uma marca do trabalho Nazareth Cerqueira.

Cruz conta que os primeiros chefes de Nazareth Cerqueira já anteviam que ele poderia se tornar um chefe exemplar.

Em sua carreira, além de duas vezes comandante-geral da corporação, Nazareth Cerqueira comandou o 4º.Batalhão de Polícia Militar, em São Cristóvão, o 19º. BPM, em Copacabana. Ainda foi Ajudante Geral, Diretor-Geral de Ensino, Subchefe do Estado-Maior e chefe do Estado-Maior da PM.

Era formado em Psicologia e Filosofia, tendo ainda cursos em Técnica de Ensino, Psicotécnica Militar e fez estágio na Gendarmerie francesa. Serviu na antiga Escola de Formação de Oficiais e no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Oficiais e Aperfeiçoamento de Sargentos. Foi um importante ideólogo militar, que se batia pela novidade no ensino:

“Sempre esteve voltado para a área de ensino. Concebeu e implementou o currículo aberto nos cursos da Escola Superior de Polícia Militar e Aperfeiçoamento de Oficiais que não poderiam ficar amarrados a velhos e ultrapassados modelos. (...) para a Academia de Polícia Militar Dom João VI, idealizou um curso voltado para a formação de profissionais de segurança pública, combatendo tenazmente a grade curricular centrada apenas em matérias militares e na abordagem excessivamente jurídica-acadêmica, em detrimento de outras matérias de interesse profissional”.

Em 18 de fevereiro de 1983, Nazareth Cerqueira assumia o comando-geral da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro - PMERJ, nomeado Secretário de Polícia Militar pelo governador Leonel Brizola. Era o início de uma trajetória de comando de sucesso e de polêmica numa organização policial bicentenária.

A primeira controvérsia aconteceu porque a sociedade brasileira se deparara com um oficial negro no comando de uma organização encarregada de policiamento ostensivo nas ruas.

A presença de Nazareth Cerqueira como comandante-geral da PM se tornara uma novidade até certo ponto constrangedora, pois colocava em cena novos questionamentos sobre o papel da polícia e da marginalidade num período ainda cheio de amarras, interdições e tensões vindas da regime militar, que ainda mantinha o controle da Polícia Militar em suas mãos.

A “surpresa” da sociedade civil em relação a Nazareth Cerqueira, em certo sentido, se originava pelo fato de as classes sociais em geral estarem acostumadas em  visibilizarem negros como policiais subalternos ou como criminosos. Neste sentido, a imagem de Nazareth Cerqueira, apresentava novos elementos de discussão envolvendo alguns parâmetros, tais como: a violência da polícia contra os negros, prováveis modificações nas técnicas de ação policial e a discussão sobre o emprego dos direitos humanos como política essencial para as ações policiais. As discussões sobre relações raciais, violência e polícia ficaram mais visíveis quando também o coronel negro Jorge da Silva, principal parceiro de Nazareth Cerqueira naquela ocasião, foi nomeado chefe do Estado-Maior da PM, uma espécie de segundo comandante da corporação. Silva expressava as novas tendências, pois era defensor dos Direitos Humanos e estudava polícia e relações raciais, tendo sido premiado com uma monografia sobre a questão racial pela OAB.

A “surpresa” atingiu a tropa, pois parte dos praças e oficiais não imaginaram que o comandante-geral da PM do novo governo fosse negro.

Até aquela data, nunca um oficial negro comandara a mais antiga instituição policial, criada por Dom João VI, em 1809, com o nome de Divisão Militar da Guarda Real de Polícia.

Mesmo tendo tido um curriculum impecável na carreira, naquela conjuntura, era quase que inimaginável dentro da estrutura de poder das organizações militares que um oficial negro pudesse comandá-la. Havia, segundo os oficiais negros, reprodução da discriminação racial na visão de mundo de alguns setores da corporação.

Um major negro ouvido na pesquisa cuja parte aquí reproduzo, sintetiza o impacto que estes setores da corporação tiveram quando Nazareth Cerqueira se tornou comandante-geral da Polícia Militar:

“Quando Nazareth Cerqueira assumiu o comando da Polícia Militar, no primeiro governo Leonel Brizola, houve reação. Lá embaixo, nos recônditos mais distantes da tropa, comentava-se assim: porra, um crioulo comandando, isso não vai dar certo. Como pelo fato dele ser negro, a PM estaria fadada ao insucesso por não ter um comandante branco. Eu lembro que havia pessoas que diziam assim: olha, pode acreditar: se não fizer na entrada, vai fazer na saída. Quando o coronel Jorge da Silva assumiu o Estado-Maior, eles comentaram: porra, agora é dose dupla. (...)  então, era um comandante negro que nunca tinha havido na história da corporação. Não era como hoje, com muitos oficiais negros.“Houve rejeições pela presença de Nazareth Cerqueira no comando, mas depois elas se tornaram quase nulas diante do trabalho que ele realizou na tropa”
 (Depoimento de um coronel negro).


Essas tensões raciais internas nunca se tornaram públicas, mas demonstram que a ascensão de negros em setores estratégicos da vida pública brasileira sempre foi pontuada por relações conflituosas quando se disputa poder, status, prestígio e bens econômicos. No caso de Nazareth Cerqueira, no entanto, havia oficiais brancos que o tinham como um grande policial. Estes oficiais se empenharam para por em prática as novas idéias de segurança pública trazidas pelo primeiro comandante negro da corporação, que chegava ao poder no redemoinho da luta pela redemocratização do país. 

No lado policial, Nazareth Cerqueira se defrontava com um aparelho policial avesso às propostas dos Direitos Humanos fazerem parte da técnica policial. Também parte deste aparelho policial estava envolvida com corrupção e grupos de extermínios, principalmente na Baixada Fluminense.

Neste contexto, Nazareth Cerqueira procurou tornar a PM permeável a participação  da sociedade civil em seus destinos e nas políticas de segurança.

Uma das medidas que causou grande impacto na comunidade negra foi a eliminação de batidas desnecessárias nas ruas e morros do Rio de Janeiro. O negro, deixou de ser suspeito para os policiais, que tinham que ter novos critérios para abordar cidadãos nas ruas.

Foram retrabalhados nas diretrizes de segurança conceitos militares empregados pela PM como “inimigo interno”, que, em geral, era empregado contra os favelados, objetos das batidas. Através de seminários sobre violência e relações raciais, Nazareth Cerqueira introduziu os primeiros estudos sobre a questão da violência policial contra a comunidade negra, trazendo militantes para palestras. Além disso, procurou sistematizar algumas propostas, em estudos internos da corporação, que mais tarde se tornaram elementos substanciais de ação para a nova polícia que a sociedade exigia.

Vamos, aqui, resgatar a fala de ex-oficiais que trabalham com Nazareth Cerqueira em relação a este propósito, o que demonstra que sua obra vai ainda ser citada e referenciada por mais tempo na história da polícia fluminense.

“Ele tinha na cabeça que a polícia é um serviço. Ele levantou a idéia de polícia-serviço em contraposição à idéia de polícia-força. (...) foi muito combatido na época e teve a oportunidade de voltar para um segundo comando e formatar melhor seu projeto.(Tenente-Coronel).

“(...) no primeiro comando, ele estava começando um trabalho prevencionista na corporação. Ele era visto como um brizolista e não como um profissional de polícia. Mas, por que isso? Porque a visão do sistema policial era a visão que o sistema autoritário impôs. Ele foi o único na história da PM que modificou essa idéia de polícia do Estado e de polícia da cidadania. (Major)

“Ele começou um discurso de prevenção quando todo o mundo estava voltado para o combate, para o inimigo interno, para a matança de delinqüentes indiscriminadamente, para a matança de pessoas que não estivessem com suas idéias de acordo com o regime (...) em 1983, ele chegou, ainda com toda essa cultura autoritária incrustada, fez um bom discurso. Era um comandante negro que nunca tinha havido na história da corporação” (Major)

“Acho que a ascensão de negros na PM começou a aparecer desde que o coronel Nazareth Cerqueira começou assumiu o comando (...) é aquele negócio, em cada profissão tem um que sobressai mais que outro, e com certeza, em relação a parte intelectual, ele estava há mil anos-luz na frente de todo o mundo”. (Major)

Conclusão.

De poucos conhecido o Cel. Carlos Magno Nazareth Cerqueira não recebeu ainda o reconhecimento da sua importancia nas relações entre a Polícia Militar e a Comunidade Negra, inclusive pela tensão histórica provocada pelo racismo institucional que influencia as relações de diversos setores no Brasil. Esta materia de autoria do estudioso Carlos Nobre ajudará a conhecer e admirar um dos mais importantes oficiais negros da História do Brasil.

Fonte: bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/aladaa/nobre.rtf

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Avenida Fechada – Carnaval de 2012, 2013...

Hoje começamos mais um período de festas Momescas. A idade pesa, porém, basta olhar a tristeza das ruas das cidades e ouvir os pancadões que nos infernizam com “música?” de péssima qualidade, em automóveis, que ironicamente se parecem mais Trios Elétricos do que meio de transporte e uma enorme fuga da realidade com grande parte das pessoas saindo em viagem para ter saudades dos bons e verdadeiros carnavais.
O fenômeno não é novo e, talvez, viva nesta fase, a sua crise mais aguda. Desculpem os mais religiosos, mas, Deus queira que o que digo seja a verdade e que isto logo acabe e voltemos a ter Carnaval no Brasil.
Tanto não é novo que em 1973 o grande Elton Medeiros, que recentemente chegou aos 80 anos, compôs a música que resume o meu sentimento sobre a atual “Festa de Momo”.

Clique aqui ouça e reflita.http://www.vermutecomamendoim.com/2010/08/disco-da-semana-elton-medeiros-1973.html

  Bom Carnaval!!!


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

OS OITO BATUTAS



Formado em 1919, foi um dos grupos musicais mais importantes para a divulgação da música brasileira nas primeiras décadas do século XX. Organizados por Pixinguinha, então diretor musical já respeitado, os Oito Batutas tocavam choros, maxixes e batuques nos salões da elite e na sala de espera do aristocrático cinema Palais, no Rio, que andava vazia desde a epidemia de gripe espanhola do ano anterior onde até então apenas pequenas orquestras se apresentavam, tocando valsas, polcas e operetas.

Muitos foram os protestos dos que consideravam um escândalo um grupo de música popular com quatro componentes negros tocando em um cinema de elite. O sucesso do grupo, no entanto foi imediato e a sala de espera do cinema Palais passou a encher diariamente com admiradores querendo ouvir as apresentações do grupo.

No final de 1919, empreenderam uma viagem aos estados de Minas Gerais e de São Paulo onde na estréia apresentaram o espetáculo "Uma noite no sertão" no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. No dia seguinte, exibiram-se no aristocrático Automóvel Clube. Apresentaram-se ainda, entre outras, nas cidades de Santos e Campinas. No início de 1920, além de visitas a cidades do interior de Minas Gerais, tornaram a se exibir em São Paulo, sempre com muito sucesso. Nesse ano, apresentaram-se no Rio de Janeiro no Teatro São Pedro na revista "Flor tapuia", de Alberto Deodato e Danton Vampré. Também no mesmo ano, exibiram-se para os reis da Bélgica no piquenique da Tijuca, oferecido pelo governo brasileiro.

Contando sempre com a genialidade musical de Pixinguinha, em 1922, o grupo embarcou para Paris a partir de um convite do dançarino Duque para se apresentare na capital francesa. A viagem foi patrocinada pelo mecenas carioca Arnaldo Guinle.
Mais uma vez por racismo a viagem do grupo à Paris provocou protestos de alguns que viam nessa iniciativa um acinte à música brasileira, mas em território francês, o sucesso do grupo foi total.

O seu retorno mostrou a influência da tourné com arranjos no estilo jazz-bands e acrescentaram ao repertório fox-trots, shimmys, ragtimes e outros ritmos.
Uma nova viagem internacional, agora para a Argentina, onde o grupo obteve novo êxito e gravou vinte músicas na gravadora Victor da Argentina do qual destaco o choro Urubu que mostra o virtuosismo de Pixinguinha. Ouça.


As músicas gravadas na ocasião foram: os sambas "Até eu!" de Marcelo Tupinambá; "Falado" de João Tomás; "Já te digo" de China e Pixinguinha e "Meu passarinho" de China; os maxixes "Ba-ta-clan" de A. Treisleberg; "Graúna" de João Pernambuco; "Lá vem ele" de J. G. Oliveira Barreto; "Não presta pra nada" de J. Bicudo; "Pra quem é?", de J. Bicudo; "Tricolor" de Romeu Silva; os choros "Caruru" de João Tomás e Donga; "Três estrelinhas" de Anacleto de Medeiros e "Urubu", de Pixinguinha; o tanguinho "Até a volta", de Marcelo Tupinambá; as polcas "Lá-ré" de Pixinguinha; "Me deixa serpentina!" de Nelson Alves e "Nair" de A. J. de Oliveira; o samba-maxixe "Se papai souber" de Romeu Silva, e as marchas "Vira a casaca!" de J. Carvalho e "Vitorioso" de Gaudio Vioti.

Sua formação mais constante foi com: Pixinguinha – flauta; China – voz, violão e piano; Donga – violão; Raul Palmieri – violão; Nelson Alves – cavaquinho; José Alves – bandolim e ganzá; Jacó Palmieri – pandeiro; Luís de Oliveira – bandola e reco-reco; João Tomás – bateria; J. Ribas – piano.

Em 1927 o grupo se dissolveu definitivamente deixando uma grande contribuição para a música brasileira embora, curiosamente, apesar de todo o sucesso alcançado, somente tenha deixado registrado os discos gravados para a Victor na Argentina. Essas gravações foram reeditadas em 1995 pelo selo Revivendo no CD "Oito Batutas" com as vinte gravações originais.

A influência dos Oito Batutas está estampada nessa homenagem de Zé da Velha e Silvério Pontes


Fontes:
http://cliquemusic.uol.com.br/artistas/ver/oito-batutas
http://www.dicionariompb.com.br/oito-batutas/dados-artisticos

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Agostinho dos Santos
Pensei em homenagear a cidade de São Paulo que aniversaria nesta semana com a lembrança de um grande paulistano e não demorei muito a me lembrar de Agostinho dos Santos nascido e criado no Bixiga, o primeiro bairro negro de São Paulo.

Agostinho é um paulistano que representa com muita personalidade, legitimidade e qualidade a cidade e que enche de orgulho da comunidade negra. Uma das maiores vozes de todos dos tempos da música brasileira reconhecido no Brasil e no exterior, como tudo que é de qualidade musical nesta fase anda relegado ao ostracismo substituído por pancadões e breganejos de induvidável e inegável péssima qualidade.

Vamos homenagear SAMPA nos seus 458 anos saudando este Paulistano inesquecível no ano em que completaria 80 anos (25/4/1932).

Ainda muito jovem fui algumas tardes de sábado no Aristocrata Clube na rua Álvaro de Carvalho e pude curtí-lo e admirá-lo brincando e cantando antes do time sair para algum jogo de futebol. Não me lembro de tê-lo visto jogando, mas dizem, era um grande jogador também.

Agostinho era muito comprometido com as questões da comunidade negra e foi um dos fundadores do Aristocrata Clube.

Da direita para a esquerda Agostinho é o 5º de pé do famoso esquadrão do Aristocrata Clube. Jogou também no Éden da Liberdade, outro time de crioulos e no Sereno também famoso na várzea.( foto do site de Thiago dos Santos - link abaixo)

Mas como eu desde aquela época gostava muito de música, de preferência brasileira e de qualidade, sempre me interessei pelo fantástico cantor Agostinho dos Santos. Como cantava fácil mansa e docemente.
Ouça a maravilha que é A felicidade de Tom Jobim e Vinicius de Moraes
( prestem atenção nos arranjos da orquestra que acompanha Agostinho dos Santos.)



Iniciou sua carreira no início dos anos 1950, como crooner da orquestra de Osmar Milani, na capital paulista. Foi contratado pela Rádio América de São Paulo em 1951 e posteriormente se mudou para Rádio Nacional paulista tendo seguido para o Rio de Janeiro em 1955 para cantar com Ângela Maria, Sílvia Telles e a Orquestra Tabajara, na Rádio Mairynk Veiga. No mesmo ano, assinou contrato com a gravadora Polydor.

Em 1956, gravou seu primeiro sucesso: a valsa "Meu benzinho", de Hawe, Gussin e Caubi de Brito que o levou a receber o importante à época, troféu Roquette Pinto (no Brasil equivalente ao Grammy) seu primeiro Disco de Ouro.

A partir de então uma série de sucessos marcaram a sua carreira. Em 1957 gravou os sambas canção "Chove lá fora", de Tito Madi e "Maria dos meus pecados", de Jair Amorim e Valdemar de Abreu, "Maria Shangay" de l Ibrahim Sued, Alcyr Pires Vermelho e Mário Jardim. Ainda neste ano lançou pela Polydor o LP "Uma voz e seus sucessos e recebeu seu segundo Disco de Ouro.

O eternizado sucesso pela inigualável interpretação "Estrada do sol", de Tom Jobim e Dolores Duran e as belíssimas gravações de "Se todos fossem iguais a você" e "Por causa de você" de Tom Jobim e Vinicius de Moraes levaram-no ao terceiro Disco de Ouro.

Outra música em que se associa o intérprete ao mais simples acorde é "Balada triste", de Dalton Vogeler e Esdras Silva.Ouça e acompanhe a romântica letra. Novamente vale a pena prestar atenção na orquestração e entender porque é difícil ouvir o funk brasileiro e os new sertanejos.



Também em 1958, lançou o LP "Antônio Carlos Jobim e Fernando César na voz de Agostinho dos Santos", no qual interpretou, entre outras, "Eu não existo sem você", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes e "Foi a noite", de Tom Jobim e Newton Mendonça e "Graças a Deus" e "Segredo", de Fernando César. Por causa desse elepê, recebeu o convite de Tom Jobim e Vinícius de Morais para ser o intérprete da trilha de ambos para o filme "Orfeu do carnaval" (No Carnaval Orfeu, condutor de bonde e sambista que morra no morro, se apaixona por Eurídice, uma jovem do interior que vem para o Rio de Janeiro fugindo de um estranho fantasiado de Morte. Mas o amor de Orfeu por Eurídice irá despertar o ciúme de sua ex-noiva, Mira. Lançado em 1959 o filme ganhou os maiores prêmios do cinema mundial a Palma de Ouro, o Oscar de melhor filme estrangeiro e o Globo de Ouro.), lhe rendeu dois grandes sucessos: "Manhã de carnaval", de Luiz. Bonfá e Vinicius de Moraes e "A felicidade" (que ouvimos acima), de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.
Vamos curtir agora Manhã de Carnaval na memorável apresentação do Carnegie Hall




Agostinho é um astro pouco conhecido e reconhecido nos dias de hoje. Vale a pena ler o blog do seu neto Thiago dos Santos – link abaixo – onde tem muitos detalhes da sua vida e carreira, todavia dois destaques, merecem aqui ser lembrados.

1.A sua consagação no show que apresentou a Bossa Nova ao mundo no Carnegie Hall de Nova Iorque onde ele naquela memorável noite foi o mais aplaudido e;

2 Uma entrevista que assisti anos atrás em que Milton Nascimento conta que foi graças a Agostinho dos Santos que surgiu no Festival Musica Popular Brasileira apresentando e cantando “Travessia” que Agostinho do Santos, a quem Milton apresentara a música para ser gravada, sem que o compositor soubesse a inscreveu e reconhecendo a qualidade da voz do compositor ao invés de se colocar como o seu intérprete, também, de forma modesta, algo que só os grandes sabem fazer, também colocou Milton Nascimento como o cantor da música o que foi decisivo para o seu surgimento e reconhecimento.

Milton Nascimento só tomou conhecimento da inscrição e classificação de suas cinco músicas para o festival quando começou a receber os cumprimentos de colegas e artistas que ficaram impressionados com seu desempenho na qualificação de tantas cançõees para um dos festivais mais difíceis da história.

 Merece registro o seu dueto com outro cantor maravilhoso o norte-americano Jonhy Mathis que em circunstâncias que devem ser agora reinvestigadas foi expulso do Brasil onde gozava de grande prestígio, na época da ditadura militar. A gravação não é de boa qualidade, porém, vale o registro histórico desse grande encontro onde interpretam de Agostinho dos Santos O amor está no ar.



Este foi Agostinho dos Santos tragicamente falecido na queda de um avião da VARIG em Orly na França em 12 de julho de 1973.

Fontes e links recomendados:
http://agostinhodosantos.blogspot.com/search/label/Biografia
http://www.adorocinema.com/filmes/orfeu-do-carnaval/
http://ipsislitteris.opsblog.org/2010/07/12/o-desconhecido-de-quem-agostinho-dos-santos/