segunda-feira, 9 de julho de 2012


A LEGIÃO NEGRA

A esquecida tropa negra que há 80 anos lutou pela democracia do Brasil.


A Revolução Constitucionalista de 1932, Revolução de 1932 ou Guerra Paulista, foi o movimento armado ocorrido no Estado de São Paulo, Brasil, entre os meses de julho e outubro de 1932, que tinha por objetivo a derrubada do Governo Provisório de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova constituição para o Brasil.

Pouco ou nada se fala da participação de milhares de homens e mulheres da comunidade negra paulista que se afastaram dos ideais propalados pela Frente Negra Brasileira, que se alinhou politicamente ao governo central para organizar a Legião Negra de São Paulo, composta por cerca de dois mil negros dispostos a enfrentar as forças federais em nome da “pátria paulista”.

A Legião, também conhecida por Pérolas Negras, se juntou aos batalhões de estudantes, operários, ferroviários, portugueses, alemães, espanhóis, e até mesmo índios, por considerar que a “causa paulista” também dizia respeito aos negros.
  
Envolvida com a “causa paulista”, mas também empenhada em fortalecer uma identidade própria, a Legião Negra escolheu para nomear os seus batalhões personagens negros e mestiços importantes da história do Brasil, como o conselheiro Antônio Pereira Rebouças e Henrique Dias.

Legião Negra além dos ideais revolucionários esperava assegurar a cidadania negra e conclamava os “homens de cor” enfatizando que a revolução era um passo importante rumo a “uma pátria livre de todas as formas de opressão” considerando-a um episódio inscrito na história de luta do povo negro.

O Jornal A Gazeta de 23 de julho de 1932 trazia a seguinte matéria:

Os homens de cor e a causa sagrada do Brasil

Os patriotas pretos estão se arregimentando - Já seguiram vários batalhões - O entusiasmo na Chácara Carvalho - Exercícios dia e noite - As mulheres de cor dedicam-se à grande causa.

Também os negros de todos os Estados, que vivem em São Paulo, quando o clarim vibrou chamando para a defesa da causa sagrada os brasileiros dignos, formaram logo na linha de frente das tropas constitucionalistas. A epopéia gloriosa de Henrique Dias vai ser revivida na luta contra a ditadura. Patriotas, fortes e confiantes na grandeza do ideal por que se batem São Paulo e Mato Grosso, os negros, sob a direção do Dr. Joaquim Guaraná Sant´Anna, tenente Arlindo, do Corpo de Bombeiro, tenente Ivo e outros, uniram-se, formando batalhões que, adestrados no manejo das armas e na disciplina vão levar, nas trincheiras extremas, desprendidos e leais, a sua bravura, conscientes de que se batem pela grandeza do Brasil que seus irmãos de raça, Rebouças, Patrocínio, Gama e outros muitos tanto dignificaram. Os nossos irmãos de cor, cujos ancestrais ajudaram a formar este Brasil grandioso, entrelaçando os pavilhões auri-verde e Paulista, garbosos, ao som dos hinos e marchas militares, seguem cheios de fé, ao nosso lado, ao lado de todos os brasileiros que levantaram alto a bandeira do ideal da constitucionalização, para a cruzada cívica, sagrada, da união de todos os Estados sob o lábaro sacrossanto da pátria estremecida.

Nem todos, porém, eram assim ideologicamente comprometidos outras razões também justificavam a participação negra. Uma delas, ligada ao desemprego e falta de oportunidades após a abolição, foi a oportunidade de ganhar alguma remuneração, enquanto estivesse lutando.

Mesmo as mulheres negras procuraram ocupação como enfermeiras, costureiras, cozinheiras e até soldados. Com o alistamento lhes eram assegurados salário, alimentação e assistência médica, tudo custeado por doações de particulares, eventos beneficentes e, certamente, verbas públicas.


Soldados e enfermeiras nas escadarias da sede da Legião Negra situada na Chácara do Carvalho
região Central - Campos Elíseos - da cidade de São Paulo

Ironicamente, ir à guerra se tornou uma maneira de garantir a sobrevivência, assim como se viu na guerra do Paraguai.

Embora derrotados nos campos de batalha, os paulista se consideraram vitoriosos com a promulgação de uma nova constituição em 1934. As histórias e memórias do movimento estão materializados em objetos, monumentos e documentos espalhados pelo estado, contudo, quase nenhuma menção se faz a participação negra no histórico episódio.


Essas lembranças são revisitadas em recente obra do escritor e jornalista, Oswaldo Faustino que romanceia a participação dos Pérolas Negras na Revolução de 32.

Fontes:





terça-feira, 26 de junho de 2012


QUINTINO DE LACERDA

Líder do Jabaquara – o 1º Quilombo de Sucesso no Litoral Paulista.



Chefe do Quilombo do Jabaquara e primeiro líder político negro de Santos. Nascido em 8 de junho de 1839, Quintino de Lacerda, foi o mais atuante agitador da abolição no litoral Paulista, garantindo abrigo a escravos fugitivos de toda a região do planalto, que aqui buscavam defesa.

O Quilombo do Jabaquara, na descrição de Silva Jardim, era verdadeiramente inexpugnável, defendido pelas encosta do morro do Jabaquara e com um único caminho de acesso permanentemente guardados pôr sentinelas de Quintino.

Em 1850 haviam 3.189 escravos em Santos, para uma população livre de 3.956 habitantes.

Não deixa de ser surpreendente que quinze anos depois já existia uma forte resistência organizada e que três meses antes da abolição do instituto da escravidão no Brasil, em Santos já não houvesse escravos. Tanto que dia 13 de maio de 1888 seguiram-se oito dias de festa populares, comícios, passeatas músicas e dança nas ruas.

Quintino de Lacerda, foi o centro das atenções e chegou a receber, em solenidade pública, um relógio de ouro, como um homenagem popular a seu mais querido líder abolicionista.

Com a abolição, o irrequieto Quintino lança-se à luta política, incorporando, pela primeira vez, os negros ao processo político na cidade. Organiza e comanda um batalhão na defesa contra uma possível invasão de tropas rebeldes interessadas em depor o Marechal Floriano Peixoto. Recebe, em reconhecimento, o título de Major Honorário da Guarda Nacional, em 1893.

Sua eleição para a Câmara municipal, em 1895, porém, faz eclodir uma grande crise política fomentada pêlos setores racista. Ela começa com a negação de sua posse como vereador.

A batalha judicial que se segue, chega aos tribunais paulistanos, e termina com a vitória de Quintino. Prevendo o desfecho em favor do líder negro, o presidente da Câmara, Manoel Maria Tourinho, renunciou ao mandato, seguido pelo vereador Alberto Veiga. O novo presidente José André do Sacramento Macuco, foi obrigado a empossar Quintino, mas renunciou também ao mandato, em seguida, declarando-se "enojado com o que via", segundo Francisco Martins dos Santos("Histórias de Santos").

Registra o mesmo Historiador que apenas um dos inimigos de Quintino permaneceu na Câmara, embora passasse a não mais comparecer às sessões, Olímpio Lima, diretor do jornal "A Tribuna do Povo".

As atividades da Câmara foram suspensas até 1º de junho, quando voltou a funcionar, sob a presidência interina do próprio Quintino.

No dia 9, os cargos vagos são preenchidos e, a 16, com base na Lei Eleitoral e devido às ausências em plenário, Quintino propõe e obtém, pôr unanimidade, a cassação de Olímpio Lima. O Jornalista, inconformado, voltou à Câmara a 12 de julho, tão logo foi empossado o novo presidente, Antônio Vieira de Figueiredo, mas foi solicitado a retirar-se, já que seu mandato fora cassado. Lima iniciou uma série violenta de ataques contra Quintino em seu jornal, e à própria Câmara, num processo que culminaria, pôr fim, com a revogação da Constituição Municipal autônoma , que fora em 15 de novembro de 1894 e durou menos de um ano.

Quintino de Lacerda morreu em 10 de agosto de 1898, deixando três filhos menores. Seu enterro foi acompanhado pôr um grande número de pessoas, um testemunho do reconhecimento de sua importância histórica.

Foi mandado erguer na cidade de Santos, monumentos ao Coronel Quintino de Lacerda, patente outorgada pelo então Presidente, Marechal Deodoro da Fonseca ao menino escravo dos engenhos de Sergipe, em Itabaiana.

Seu nome também foi lembrado em sua terra, onde denominaram uma artéria publica com seu nome no centro da cidade (Rua Quintino de Lacerda) e reconheceram-no pelo seu legislativo municipal, como Herói Negro de Itabaiana, considerando o 8 de Junho como o Dia Municipal de Luta da Consciência Negra em sua homenagem gravado em 20 de setembro de 2001.

 Jabaquara - Santos

Menos conhecido do que o bairro que leva o mesmo nome na cidade de São Paulo, Jabaquara morro que deu nome ao quilombo é um bairro localizado na cidade de Santos, estado de São Paulo, no Brasil.

No século XIX, a área era conhecida como Sítio Jabaquara, e abrigava um grande quilombo que fugiam do interior de São Paulo para aquele local em busca de melhores condições de vida, que desciam a Serra do Mar a pé, no maior quilombo brasileiro.

Hoje, constitui-se de um bairro predominantemente residencial, mas abriga um dos maiores e mais antigos hospitais do país, a Santa Casa de Misericórdia de Santos, além de abrigar o Centro de Treinamento do Santos Futebol Clube e o estádio Ulrico Mursa, da Portuguesa Santista.

O bairro já abrigou o Jabaquara Atlético Clube, que levou o nome do bairro em conseqüência de sua origem e que forneceu diversos craques ao futebol brasileiro.

Fontes:

http://jornalnago.blogspot.com.br/2008/06/quintino-de-lacerda-heroi-negro-de.html 


sábado, 2 de junho de 2012


TOBIAS BARRETO


 
O negro sergipano que falava alemão era feminista e abolicionista.


Tobias Barreto de Meneses (Vila de Campos do Rio Real, 7 de junho de 1839 — Sergipe, 26 de junho de 1889) mestiço, pobre, nasceu na vila de Campos do Rio Real que passou a se chamar Tobias Barreto em sua homenagem, província de Sergipe em 7 de junho de 1839, e faleceu em Recife, Pernambuco em 26 de junho de 1889.

Bacharel em direito pela Faculdade do Recife, foi jornalista, advogado e deputado provincial. Destacou-se no campo da filosofia por sua atuação polêmica contra o conformismo retórico. Questionou a concepção de física social do positivismo, relacionou o conceito de cultura à constituição de normas para a compreensão do social e do humano. Entendia a metafísica como teoria do conhecimento divergindo profundamente do positivismo. Admitia a liberdade humana como realidade não empírica. Defendeu o liberalismo na política, a emancipação feminina e a libertação dos escravos. Foi uma figura central na Escola do Recife, disseminando o pensamento filosófico alemão no Brasil que, naquela época, sofria forte influência da cultura francesa. Certamente, foi um importante pensador brasileiro no século XIX.

Filósofo, poeta, crítico e importante jurista foi também fervoroso integrante da Escola do Recife, um movimento filosófico de grande força calcado no monismo e evolucionismo europeu, Tobias Barreto foi o fundador do condoreirismo brasileiro.

O Condoreirismo ou condorismo é uma parte de uma escola literária da poesia brasileira, a terceira fase romântica, marcada pela temática social e a defesa de idéias igualitárias.
Uma poesia social, comprometidos com a causa abolicionista e republicana. Em geral são poemas de tom grandiloqüente, próximos da oratória, cuja finalidade é convencer o leitor-ouvinte e conquistá-lo para a causa defendida.
O nome da corrente, condoreirismo, associa-se ao condor ave de vôo alto e solitário, com capacidade de enxergar a grande distância, os poetas condoreiros supunham serem eles também dotados dessa capacidade e, por isso, tinham o compromisso, como poetas-gênios iluminados por Deus, de orientar os homens comuns para os caminhos da justiça e da liberdade.

Sua temática, contudo, além de questionar a estrutura escravista do regime monárquico em vigência, opondo-lhe a República e a Abolição, procede a uma reflexão filosófica profunda acerca da Divindade dogmática como instituição mantenedora das desigualdades sociais, e conivente com a exploração do homem pelo homem:
Se é Deus quem deixa o mundo
Sob o peso que o oprime,
Se ele consente esse crime,
Que se chama escravidão,
Para fazer homens livres,
Para arrancá-los do abismo,
Existe um patriotismo
Maior que a religião.

Encontramos um eu-lírico céptico e questionador de todos os dogmas religiosos que não se furta a apontar as falhas Divinas:
                            (...)
                            Nesta hora a mocidade
                            Corrige o erro de Deus.

Postura que se mostra muito mais eloqüente e incisiva em Ignorabimus :

Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo
E surdo ao brado do universo inteiro...
De dúvidas cruéis prisioneiro,
Tomba por terra o pensamento altivo.

Dizem que o Cristo, o filho do Deus vivo,
A quem chamam também Deus verdadeiro,
Veio o mundo remir do cativeiro,
E eu vejo o mundo ainda tão cativo!

Se os reis são sempre os reis, se o povo ignavo
Não deixou de provar o duro freio
Da tirania, e da miséria o travo,

Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio,
Se o homem chora e continua escravo,
De que foi que Jesus salvar-nos veio?...

Dedicou vários anos a aprofundar-se no estudo do alemão, para poder ler no original alguns dos ensaístas germânicos, à frente deles Ernest Haeckel e Ludwig Büchner". Conta Hermes Lima, em sua magnífica biografia de Tobias, que ele "para irritar o burguês, com uma nota mais ostensiva de superioridade, abria freqüentemente seu luminoso leque de pavão: o germanismo". Foi em alemão que Tobias redigiu o "Deutscher Kampfer" (O lutador alemão). Mais tarde sairiam de sua pena os "Estudos Alemães".

A obra de Tobias é de significativo valor, levando em conta que o professor sergipano não chegou a conhecer a capital do Império.

Suas "Obras Completas", editadas pelo Instituto Nacional do Livro, incluem os seguintes títulos: "Ensaios e Estudos de Filosofia e Crítica", 1875. "Brasilien, wie es ist", 1876. "Ensaio de pré-história da literatura alemã". "Filosofia e Crítica". "Estudos Alemães", 1879. "Dias e Noites", 1881. "Polêmicas", 1901. "Discursos", 1887. "Menores e Loucos", 1884.

Hoje, em sua homenagem, a Faculdade de Direito do Recife é carinhosamente chamada de "A Casa de Tobias".