A LEGIÃO
NEGRA
A esquecida tropa negra que há
80 anos lutou pela democracia do Brasil.
A Revolução Constitucionalista de 1932, Revolução de 1932 ou Guerra Paulista, foi o movimento
armado ocorrido no Estado de São Paulo, Brasil, entre os meses de julho e
outubro de 1932, que tinha por objetivo a derrubada do Governo Provisório
de Getúlio Vargas e a promulgação de uma nova constituição para o Brasil.
Pouco
ou nada se fala da participação de milhares de homens e mulheres da comunidade
negra paulista que se afastaram dos ideais propalados pela Frente Negra
Brasileira, que se alinhou politicamente ao governo central para organizar a
Legião Negra de São Paulo, composta por cerca de dois mil negros dispostos a enfrentar
as forças federais em nome da “pátria paulista”.
A Legião, também
conhecida por Pérolas Negras, se juntou aos batalhões de estudantes, operários,
ferroviários, portugueses, alemães, espanhóis, e até mesmo índios, por
considerar que a “causa paulista” também dizia respeito aos negros.
Envolvida com a
“causa paulista”, mas também empenhada em fortalecer uma identidade própria, a
Legião Negra escolheu para nomear os seus batalhões personagens negros e
mestiços importantes da história do Brasil, como o conselheiro Antônio Pereira
Rebouças e Henrique Dias.
Legião Negra
além dos ideais revolucionários esperava assegurar a cidadania negra e conclamava
os “homens de cor” enfatizando que a revolução era um passo importante rumo a
“uma pátria livre de todas as formas de opressão” considerando-a um episódio inscrito
na história de luta do povo negro.
O Jornal A
Gazeta de 23 de julho de 1932 trazia a seguinte matéria:
Os
homens de cor e a causa sagrada do Brasil
Os
patriotas pretos estão se arregimentando - Já seguiram vários batalhões - O
entusiasmo na Chácara Carvalho - Exercícios dia e noite - As mulheres de cor
dedicam-se à grande causa.
Também
os negros de todos os Estados, que vivem em São Paulo, quando o clarim vibrou
chamando para a defesa da causa sagrada os brasileiros dignos, formaram logo na
linha de frente das tropas constitucionalistas. A epopéia gloriosa de Henrique
Dias vai ser revivida na luta contra a ditadura. Patriotas, fortes e confiantes
na grandeza do ideal por que se batem São Paulo e Mato Grosso, os negros, sob a
direção do Dr. Joaquim Guaraná Sant´Anna, tenente Arlindo, do Corpo de
Bombeiro, tenente Ivo e outros, uniram-se, formando batalhões que, adestrados
no manejo das armas e na disciplina vão levar, nas trincheiras extremas,
desprendidos e leais, a sua bravura, conscientes de que se batem pela grandeza
do Brasil que seus irmãos de raça, Rebouças, Patrocínio, Gama e outros muitos
tanto dignificaram. Os nossos irmãos de cor, cujos ancestrais ajudaram a formar
este Brasil grandioso, entrelaçando os pavilhões auri-verde e Paulista,
garbosos, ao som dos hinos e marchas militares, seguem cheios de fé, ao nosso
lado, ao lado de todos os brasileiros que levantaram alto a bandeira do ideal
da constitucionalização, para a cruzada cívica, sagrada, da união de todos os
Estados sob o lábaro sacrossanto da pátria estremecida.
Nem todos,
porém, eram assim ideologicamente comprometidos outras razões também
justificavam a participação negra. Uma delas, ligada ao desemprego e falta de
oportunidades após a abolição, foi a oportunidade de ganhar alguma remuneração,
enquanto estivesse lutando.
Mesmo as
mulheres negras procuraram ocupação como enfermeiras, costureiras, cozinheiras
e até soldados. Com o alistamento lhes eram assegurados salário, alimentação e
assistência médica, tudo custeado por doações de particulares, eventos beneficentes
e, certamente, verbas públicas.
Soldados e enfermeiras nas escadarias da sede da Legião Negra situada na Chácara do Carvalho
região Central - Campos Elíseos - da cidade de São Paulo
Ironicamente, ir à guerra se tornou uma maneira de garantir a sobrevivência, assim como se viu na guerra do Paraguai.
Embora
derrotados nos campos de batalha, os paulista se consideraram vitoriosos com a
promulgação de uma nova constituição em 1934. As histórias e memórias do
movimento estão materializados em objetos, monumentos e documentos espalhados
pelo estado, contudo, quase nenhuma menção se faz a participação negra no
histórico episódio.
Essas
lembranças são revisitadas em recente obra do escritor e jornalista, Oswaldo
Faustino que romanceia a participação dos Pérolas Negras na Revolução de 32.
Fontes:
